terça-feira, 3 de julho de 2012


Haiku do Amieiro

Na sombra do amieiro
Um açude de prata
Oh doce murmúreo...

quinta-feira, 28 de junho de 2012

Aves – Negrelos: um despique jornalístico entre amigos, em 1930.(9)


(datada de 5/10/930, continuando do número anterior, a correspondência do Padre António)

 O Telégrafo - Postal de Negrelos ... em S. Miguel das Aves
                Com esta breve descrição parece-me estar a ver a Bruxa, “que a vivos medo e a mortos faz espanto”, de espada desembainhada a comandar as Aves  de mistura com muita bicharia, e ouvir o zumbido dos insectos, o piar dos mochos, o grasnar dos corvos, o regougar das raposas, os uivos dos lobos e o sibilar dos ventos; o latir dos cães, o chilrear dos pardais, o assobiar dos melros, o tagarelar das pegas e o trinar dos rouxinóis e canários; o arfar surdo e cadenciado dos perús, o cacarejar das galinhas, o cantar dos galos e perdizes e finalmente os guinchos estrepitosos e monótonos dos pavões!
                Feita esta digressão voltemos a focar os rios e as Aves de S. Miguel. Da confluência ou junção do rio Ave com o Vizela, em Caniços, é que resultou o Avizela – Ave vizela – e como de Caniços para baixo segue um só rio formado pelos dois Ave-Vizela, o suposto maiorzinho, Ave, empalmou o Vizela, e meteu-o na barriga, ficando a chamar-se Ave e só Ave, que todo lépido e orgulhoso se estende atá Vila do Conde.
                Sumiu-se ou fundiu-se o Vizela com o Ave, em Caniços, e portanto não se formou o santíssima léria do Avezinho, Ave pequenino, mas o Ave maior. Percebeu?
Isto é de instrução primária elementar. Com propriedade e verdade devia chamar-se: Ave-Vizela, ou Avizela, ou Avesão, ou Ave maior, ou simplesmente Ave, como realmente se ficou a chamar.
                (…) Se for preciso escopeta e chumbo também sei atirar para a cabeça das Aves. É uma necessidade dizimá-las, pois já não cabem em todas as casas da sua freguesia. É por isso que querem a Estação de Negrelos, a Telégrafo-Postal de Negrelos, três quartas partes da Fábrica de Negrelos, a Fábrica ou Empresa Industrial de Negrelos, a Mercantil de Negrelos, a Loja Operária de Negrelos, a Fotografia das Aves de Negrelos, bilhetes da rifa para a Igreja das Aves de Negrelos, metade das pontes de Negrelos, a capela da Senhora da Seca de Lordelo, a Fabrica Bermoser de Lordelo, e por este andar chegam à própria Igreja de Lordelo, onde estabelecem a “garage” e nos velhos automóveis que aí há vão à conquista do mundo inteiro.
(… )  O colega em dois artigos faz-me alusão pessoal , transcrevendo só palavras isoladas e escarnecendo de mim , à moda das mulheres de soalheiro.
                Se o colega se limitasse no último e penúltimo números deste jornal a fazer a descrição chulista da sua e da minha freguesia, que deixou os papalvos de boca aberta, eu ria-me da sua manhosa, intencional e contraditória palinódia, e deixava passar carros e carretas, almocreves e ferradores, tocadores de viola, criados de servir, padres e operários, azêmolas e cachorros, gatos e cães de regaço, formigas, mosquitos, carregadeiras de pão, moleiros e taberneiros, jornalistas, estudantes, mendigos, a caliça e aleijões que por aí há e finalmente rapazes e raparigas que nessa freguesia andam amiúde com os baldes na mão a tirar água dos poços e cisternas para matar a sede a essa gente, que, em Romão, já tinha morrido toda se não fosse um benemérito brasileiro;  mas vindo fazer confronto com outras freguesias, inclusive a de Negrelos, quando terminar o assunto – Estação de Negrelos ou das Aves – farei um paralelo entre a sua e a minha freguesia  e verá qual é a mais importante.
                Far-lhe-ei ver que se a sua é pérola ou princesa na aparência, a de Negrelos em tudo e por tudo é rainha.
                Tem essa freguesia a vantagem da bela situação geográfica e o bairrismo desse bom povo, de que  Vª. Revª é o mentor entusiasta.
(…)
                Senão veja o que era a sua freguesia, composta de Romão, Sobrado e Aves, três velhos cacos soldados a resina, para fazer um triângulo maçónico com vértice em Caniços – o inferno!
(….) chega à conclusão que Negrelos é uma ladeira íngreme, sobranceira às Aves, onde há muita humidade, conforme o  colega confessa no último número. Sendo assim, Negrelos está vertendo para as Aves todas as suas águas, o que será transformar a sua freguesia  num escoadouro pouco limpo… A tanto não queria eu chegar.
(…) Por hoje basta, que o relógio dá duas horas da noite.
Au revoir.
Padre António Maria Monteiro Brandão

segunda-feira, 18 de junho de 2012

Aves – Negrelos: um despique jornalístico entre amigos, em 1930.(8)

Caniços, (o inferno?) em 1909 

( O Padre António, em Setembro de 1930...)


     Que era ridículo e irrisório já lhe fiz ver, que é despropositado e falso, fácil é demonstrá-lo, sem recorrer à filosofia jocosiana. Para que fosse apropriado era mister que o Rio Ave, de quem a sua freguesia parece herdar, embora impropriamente o onomástico Aves passasse mais perto da Estação que Rio Vizela, mas é o contrário.(…) Portanto devia chamar-se estação do Rio Vizela, a indicar que este rio passava perto, e não estação do Rio Ave, que está longe e muito menos das Aves, a não ser que este nome derive de passarada.
     Transformar-se de Rio Ave em fêmeas Aves ou confundir-se, o meu amigo não quer por recomendação expressa de última vontade , antes de lhe arrefecer o céu da boca. Além disso
        A transformação por metempsicose do Ave, rio,  em aladas bicharocas Aves, é um disparate, um verdadeiro contra-senso, uma falsidade!
        Deveria neste caso chamar-se freguesia e estação do Ave, e não das Aves, como bem fizeram os habitantes de Riba d’Ave, de Santo Tirso de Riba d’Ave (…), e os de sobre o Tâmega, etc. que não usaram o plural, mas o singular.
        É uma falsidade, é um erro, dizer que um é ao mesmo tempo dois, e portanto, acertadamente andaram estes povos cultos e civilizados em usar o onomástico Ave e Tâmega e não Aves e Tâmegas, etc.
        Das duas uma, não há que fugir, ou os antepassados da sua freguesia puseram ou deram o nome de Aves por causa da passarada, ou então temos forçosamente de concluir que eram estúpidos e bárbaros; e ainda existem na sua freguesia alguns bárbaros, e é o colega  que o afirma em letra redonda, no último número deste belo jornal!
        De tudo isto se vê claramente que há corrupção e transformação de palavras e de sexo e, portanto, o nome de Aves é despropositado, impróprio e falso. Ora isto implica a existência dum nome próprio e verdadeiro, e este é Negrelos . Por conseguinte, não deve jamais chamar-se das Aves, mas Estação de Negrelos. Ademais as Aves, como seres viventes, morrem, statutum est semet mori, depois de mortas corrompem-se, e conseguintemente cheiram mal, jam fetet; ao que mal cheira chama-se porcaria, que nem toda a água do rio Vizela, com muito sabão de mistura, é capaz de lavar.
        O colega varias vezes afirma, e uma vez tentou infantilmente demonstrar que a sua freguesia tirou o nome dos dois Aves. Qual Aves? Ou qual carapuça? Nunca se chamaram Aves aos dois rios  até Caniços, nem tão pouco daqui a Vila do Conde.
         (…) O rio Vizela com propriedade filológica ou científica jamais teve o nome de Avezinho, rio pequenino. Onde estava o rio grande para termo de comparação? Avizela, rio pequenino, companheiro e amigo inseparável do Ave, rio grande! (…)
         O meu amigo e colega padre Lemos a respeito da ciências filológica está muito atrasado, não pesca patavina, e não admira, porque os seus dicionários estão errados neste ponto ou são a sucata da biblioteca da Bruxa ou Moura Encantada de Valgas, com morada antiquíssima nessa freguesia. Decomponha como quiser, e dê-lhe a etimologia mais arguta que entender que com propriedade científica não consegue do Vizela fazer Avizela, rio mais pequeno (…)
         Na bruma dos séculos, até há cinquenta anos os habitantes de S. Tomé de Negrelos e de Rebordões, e toda a gente dizia que o lugar de Caniços era o inferno, e apontando para a minúscula e antiquíssima freguesia de Romão e para toda a parte sul de S. Miguel, a que foi anexa, chamavam  a África, e bem o parecia.
        O colega não o pode negar e sabe perfeitamente que ainda aí existem exemplares autênticos de bárbaros e vestígios dos romanos e dos mouros…
          Era realmente feio o caco velho de Romão e toda a parte sul das Aves, que desde Romão abrangia o covil da Bruxa de Valgas e a aldeola do Tiromiro e seus vizinhos Salsa e Capela; estendendo-se pelo  lado de baixo da Botica Velha abrangia o moinho do Ruivo e tinha como terminus a casa em que nasceu o antigo Saia, mais tarde benemérito Conde de S. Bento.
(continua)

sexta-feira, 15 de junho de 2012

Aves – Negrelos: um despique jornalístico entre amigos, em 1930.(7)


( o Padre Joaquim da Barca:)

… confesso, com sinceridade, que me tem tristemente impressionado a prosa romarieira do meu grande amigo o sr. padre António de Xisto, na controvérsia que originou , sem nenhum motivo ponderoso, com a sua cartinha de 17-8-930, inserta no nº 18 deste amicíssimo jornalzinho, e que tenho lamentado, muitas vezes, a sós comigo, a pobreza franciscana da sua argumentação.
Casa da Barca, Vila das Aves
                Não tenho sentido pequeno pesar em ver o seu nome a subscrever artigos em estilo de esfolhada, capazes de despertar riso em ignorantes, mas absolutamente impotentes para convencer uma inteligência, mesmo modestamente esclarecida.
                Um assunto sério, meu caro senhor, trata-se em linguagem séria e com argumentos sérios.
                As facécias, os motejos, as chacotas, as zombarias e os remoques são geralmente, contraproducentes. (…) Deixe-me falar-lhe, sr. padre Brandão, com o coração nas mãos: eu esperava mais e melhor da sua pena. Não me tome a mal esta rude franqueza.
                (…) Se não vier coisa de maior tomo, desde já posso cantar vitória, não lhe valendo de nada ter chamado à baila o D. Quixote – a imortal criação de Cervantes,  infalível recurso de todos os arsenais mal apetrechados  para as refertas do espírito, já mais poída que as botas de um almocreve. Nem originalidade, nem novidade, nem sequer ajustada aplicação.
                E depois também não foi nenhuma a sua  ventura na escolha do matiz para os seus artiguinhos ou artigões…
                Ora veja lá, sr. padre António Maria Monteiro Brandão, se são digno esmalte da sua prosa as palavras: taberna, meios litros, ramos de loureiro , paus de ferro, cacetes, machos – e de penas –fêmeas, galinheiros e galinhas, capoeiras e galos, bicharocos, bacamartes, saias curtas, cambaleando, turras, manhoso, gaiolas e outras miudezas.
                (… )  E como se há-de classificar a ousadia de chamar ridículo ao nome Aves, só porque se lembrou de disparatadamente o comparar a galos e galinhas ou disso o derivar?
                (…)  E que se há de dizer da afirmação piramidal de deixar de ser nossa a estação, pelo facto do terreno em que se encontra ser comprado pela Companhia?
                É claro que ela é de todo o mundo para uso, mas enquanto à localização é só nossa, é só das Aves, meu reverendíssimo e diletíssimo confrade, nunca podendo dizer os de Negrelos, com verdade, que a sua freguesia tem estação dentro dos limites.
                 Quem precisa de fazer uma nova estação não é S. Miguel das Aves, que já tem uma –e ainda há de ter outra, se Deus quiser; quem carece de edificar uma, ao  menos, é S. Tomé de Negrelos, que não tem nenhuma, nem de cortiça nem de papelão.
                (…) Também há de permitir que eu  mais uma vez  lhe diga que do meio das pontes que nos unem, para a banda de cá, mandamos nós e só nós.
                Fique isto sabido duma vez para sempre. Intrusões, nunca!
                (…) E o sr. padre Brandão, meu amigo íntimo, de muitos anos, querendo, no que me dá muita satisfação, convidar-me para as afamadas sarrabulhadas do solar rico de Quintão, escreva para este seu criado, que na Barca, que já se desencalhou do Vizela e que põe ao seu dispor, para um passeio até ao Fojo, aguarda as suas estimadas ordens, prometendo jejuar na véspera das jantaradas, para gáudio da  cozinheira  e do patrão. Ah, meu boníssimo reverendo, se tivesse lido com serenidade e sem pruridos de literato filósofo os meus artiguitos sobre a palavra “Negrelos”, daqui das Aves, não se teria arvorado em D. Magriço da sua terra, cuja honra ninguém poluiu nem seque tentou poluir.

sábado, 9 de junho de 2012

Aves – Negrelos: um despique jornalístico entre amigos, em 1930.(6)


Aves, 23/9/1930
O que as Aves são…

" o murmurante Ave fez-se seu padrinho..."
         As minhas dilectíssimas Aves valorizam-se de dia para dia e de dia para dia é mais intensa e vibrante a sua ânsia de progresso (…). Querem vencer e hão-de vencer.(…)
         O seu nome – “Aves” – para quem lhe sabe a origem e for susceptível  de se impressionar pelo belo, vale um poema e não há chocarrices e graçolas que consigam diminuir-lha a valia, roubar-lhe os ânimos, ofuscar-lhe a poesia. Ali, ao norte, temos Riba d’Ave, rica e formosa; mais para o sul, Santo Tirso de Riba d’Ave, primeiro, a vila donairosa, inconfundível; e, depois, num vale formosíssimo, onde as vinhas e os laranjais reverdejam pomposamente, aninha-se, num grande tabuleiro alfombrado de relvas, Refojos de Riba d’Ave.
           O murmurante Ave, ao beijar essas terras na sua passagem para o mar, fez-se seu padrinho. E que lindas e esbeltas afilhadas escolheu e que magníficos enxovais lhes ofertou.
        Para com S. Miguel levou mais longe ainda a gentileza: foi dela também padrinho e arranjou-lhe uma madrinha de peregrina formosura:
         O Avicela, o seu melhor tributário! E a esta afilhadinha, para se não confundir com nenhuma das outras, resolveram os dois, de comum acordo, dar-lhe um nome que traduzisse os encantos de ambos e que a todos lembrasse, através dos tempos, a frescura dos salgueirais que os orlam, o suavíssimo murmúrio das suas linfas ao deslizar pelas pedras dos açudes e ao amor do primeiro abraço que lhe deram.
           E escreveram-lhe na fronte nobre e bela. S. Miguel “ De Entre os Aves”.
           (…) E em todo o Portugal só o fará derivar de passarada quem não pescar patavina de onomatologia.
           (…) Vai na vanguarda. E tem tudo isto sem dever nada às seis paróquias que a cercam, às quais pode dar, e dá de facto, lições de actividade, abnegação e bairrismo.
           As minhas Aves queridas têm hoje uma aspiração muito legítima. Com tudo o que acima mencionei, com as águas do Amieiro Galego  e com a iluminação eléctrica, querem ascender à categoria de vila! E porque não?  Não as há por esse Portugal fora muito mais atrasadas e pobrezinhas? Eu creio que ainda hei de ter o gosto de ver nas geografias, na relação delas, a Vila das Aves, ainda que isso pese a uns invejozinhos que em seu redor medram e que ainda a hão de saudar com respeito, venerar com afecto  e reconhecer como terra de brios grandes(…).

          Padre Joaquim de Barca

domingo, 3 de junho de 2012

Aves – Negrelos: um despique jornalístico entre amigos, em 1930.(5)


(a prosa do Padre António, continuação…)


Já que entrei nos domínios da filosofia, apesar de não ter a elegância demosténica, filosoficamente lhe vou demonstrar que se na Estação se inscrevesse a palavra Aves o colega seria o primeiro a arrepender-se e não haveria chefe que fizesse o serviço.
Para isso vou estabelecer as premissas. A primeira será tirada da filosofia Tomista, e o restante da filosofia Jocosiana.  Jocoso, como  sabe, é um filósofo de fama mundial. A sua monumental filosofia entra em todas as Universidades científicas. Nas Academias, Liceus, Colégios e Seminários é muito manuseada.(…)
Se na estação se eliminasse a palavra Negrelos e fosse substituída pelo irrisório Aves, a rapaziada, lendo este nome, munia-se de fisgas e logo que visse o Chefe à janela com os vivos amarelos no barrete, supondo que era um canário ou um papa-figos  – zás – uma fisgadela  na testa do chefe, e ficava morto. E caso não morresse e estonteado fugisse , a rapaziada subia à janela para caçar o passarinho; entrava e era presa pela autoridade, como bando de gatunos e assassinos.
Em visto do exposto não havia chefe que quisesse fazer os serviço, a não ser um descrente ou um louco, mas isso não convinha e, portanto, o colega Padre Lemos dizia: “ mude-se outra vez o nome, Negrelos é que deve ser e não Aves”.
Tornava a estação a chamar-se de Negrelos e não das Aves: damos de barato que o amigo Padre Lemos não se dava por vencido com este argumento autenticamente Jocosiano.
Se esta demonstração o não convence, como nos há de convencer  a sua reles demonstração de que Negrelos vem de ager  e de niger?
Negrelos decomposto não descende de tais bicharocos  nem de ager  e niger. Isso é uma invenção sua ou de algum nefelibata, muito inferior à minha Jocosiana, que é mais provativa; e não repugna acontecer o que por sua argumentação se pretende demonstrar.
Niger e ager são Aves glicónicas que não arribam a Negrelos, e alimentam-se nos arrozais da sua fértil e mimosíssima freguesia.
(…)  O amigo Padre Lemos ao ver a palavra Negrelos na estação fica desnorteado, arrepiam-se-lhe os cabelos, crispam-se-lhe as mãos  e com os nervos em contínua vibração, puxa do florete e investe contra o seu inimigo Negrelos, como o camponês contra os paus de ferro e o D. Quixote contra o moinho de vento.
O seu amor apaixonado pelas Aves queridas ofusca-lhe o espírito e faz-lhe ver preto o que é branco e bonito o que é feio. (….) o amor é um binóculo prismático que deforma a verdade.
É por isso q eu num artigo o meu amigo escreve : o Negrelos da minha embirra é o das estações férrea e do telégrafo postal; noutra parte finge não saber o que Negrelos é e noutro artigo dá-lhe personalidade jurídica responsável, porquanto chama-lhe usurpador, e ser preciso bani-lo e fazê-lo passar o Avizela. Apelida-o de feio e estrangeiro , e noutro eleva a adjectivação ao superlativo, e denomina-o de estrangeiríssimo. Para fundamentar a sua proposição argumenta: que não nasceu nas Aves, nem está registado no civil nem no religioso.
O meu amigo falta à verdae duas vezes só neste período; porquanto nasceu aí na estação que
Impropriamente pretende cognominar das Aves e está registado oficialmente como passo a demonstrar.
O Negrelos a que se refere não é estrangeiro porque nasceu na estação apenas ela chegou à idade e hora própria de ser mãe, viveu sempre em sua companhia, foi baptizada por quem de direito  e, agora que tem maior idade e fez as bodas de ouro, jamais a largará.
Além disso não é estrangeiro porque só se chama e é estrangeiro  o território, idioma, pessoas ou coisas de Pátria diversa.
Ora Negrelos é do nosso pátrio Minho, da nossa linda e poética região(…)
Está registado oficialmente nos livros do chefe da Estação e em muitos cartões, cartazes e anuários ferroviários.(…)
Mudar o nome nesta altura seria um disparate incompreensível, um verdadeiro absurdo e faria um transtorno enorme. Isto é tão intuitivo que não carece de demonstração.
Se os das Aves querem uma Estação com o nome da sua freguesia que façam uma nova em terreno que lhe pertença  e não no terreno que agora não é seu, porque o venderam
à Sociedade Soares Veloso em Comandita. A estação que aí está é tanto sua como minha, pertence tanto às Aves como aos de Negrelos, Rebordões, Roriz, Monte Córdova, etc  (…)
Os de S. Tomé não reconhecem aos de S. Miguel o direito de lhe imporem o nome despropositado de Aves e gloriam-se de ver e ler na estação o histórico e fidalgo – Negrelos.

quinta-feira, 31 de maio de 2012

Aves – Negrelos: um despique jornalístico entre amigos, em 1930.(4)

( e continua, o padre Joaquim…)

“se as mirasse com as suas boas lentes de aros de ouro, descobriria, através da bruma dos séculos, que o mimosíssimo triângulo que tem o vértice nos Caniços e a base em Lordelo e Riba d’Ave, foi sempre mais florescente e povoado que a sua paróquia, chegando a comportar três freguesias, todas de antiquíssima formação .(…)
As Aves o que são devem-no à sua excelente situação geográfica, às maravilhosas condições da sua topografia, ao bairrismo dos seus moradores e à generosidade de alguns dos seus filhos. Não querem a freguesia de S. Tomé de Negrelos para mãe, quanto mais para pai!...(…)

E também não estão resolvidas a consentirem que se confunda o seu  belíssimo nome “Aves” com “Negrelos” que não lhes pertence, nem reconhecem a ninguém o direito de lho querer impor. As quatro letras da palavra “Aves”, para mim e para todos os meus conterrâneos, valem mais e dizem muito mais que as oito – e dantes eram nove!- de Negrelos.


Resposta do Padre António…

Negrelos,  14-9-930

Lendo no último número do “Jornal de Santo Thyrso” a correspondência das Aves, veio-me à lembrança o camponês que embirrava com os paus de ferro e o Dom Quixote, que supunha ver num moinho de vento um inimigo temível a esgrimir lanças; e notei que o amigo Padre Lemos foi duma infelicidade pasmosa ao pretender dolosamente dissecar e refutar a minha prosa plumitiva, testa, brava e indignada!... (…)
Foi preciso esperar mais de 20 anos para ver,
ainda que efemeramente, o nome Aves
na estação...
Eu e os meus patrícios não confundiremos o sexo macho com o sexo fêmea. Ficamos sabendo que as fêmeas Aves , por si protegidas, têm quatro penas e o macho Negrelos tem oito e que antigamente tinha nove, mas que lhe foi cortada uma.
Negrelos está aqui de cima com vida e saúde, as Aves ficam-lhe aos pés. A linha férrea e o rio separam o macho das fêmeas, não se misturam. Morra descansado e em paz.
V. Reverência tem a estuar-lhe no peito três amores: o amor da religião, que professa exemplarmente, o amor da família, que idolatra, e o amor das peregrinas e queridas Aves, que o entusiasma e apaixona.
É  seu sonho dourado engrandecê-las com bons caminhos e estradas, casas bem construídas e alinhadas e que tenham inscrita a ouro, como brasão fidalgo, a palavra Aves.
Eu preferia mandar pintar uma Ave em cada casa. Ficava a matar esse símbolo onomástico. Nomes são nomes, não enchem barriga, ao passo que as Aves  parecem as naturais que, preparadas com arroz, fazem um pratinho muito apreciado.
É mais estético e afidalgado pintar uma Ave , e é de mau gosto e até ridículo escrever a palavra Aves na frontaria das casas.
Quem passar de viagem no comboio, vendo escrita na Estação a palavra Aves, diz logo: “ ali está uma gaiola”; e como Aves é um termo genérico, podem fazer ideia que é um galinheiro que contem galos e galinhas para despachar . Reparando que todas as casas ostentam o mesmo onomástico Aves concluem logicamente: aqui é a terra das galinhas e dos galos, porque existem muitas capoeiras;  como corolário flui naturalmente que não se deve escrever a palavra Aves na estação de Negrelos nem em casa de rico ou de pobre, de contrário fica a freguesia de S. Miguel das Aves a ser conhecida por freguesia das capoeiras
Se a lógica não é uma batata, fica provado filosoficamente que se deve conservar o nome de Negrelos na estação  e não o trocar pelo ridículo Aves.

segunda-feira, 28 de maio de 2012

Aves – Negrelos: um despique jornalístico entre amigos, em 1930.(3)

" O sr. padre António, do seu solar de Quintão, olhou para o passado
das minhas peregrinas Aves sem óculos..."

(ainda o Padre da Barca, em 8-9-1930)

“… O próprio mafarrico não se lembrava disto! …. Depois chama-lhe carcaça seca, mirrada, esquelética e sem vida. Em primores ninguém o vence, meu caro amigo, nem em fantasias!
E mais abaixo dá-lhe uma cabeça com bico, garras e asas e acaba por lhe chamar Ave medonha! Isto é que é usar termos polidos, sem falar na sua impropriedade, pois a minha freguesia não tira o nome que orgulhosamente usa de nenhuma espécie de animais alados, mas dos dois rios murmurantes que a cingem com a sua linfa e cuja frescura e poesia admiravelmente traduz!...
(…) Se S. Tomé tem caminhado tão vagarosamente; se não tem tido energias para se engrandecer a si própria, como poderia ser capaz de transformar as Aves na princesa do concelho?
(…) Ao antigo “Julgado de Negrelos”, do qual a sua terra se orgulha de ter sido a sede, com o que nada temos, nenhum bem nos veio e nunca lhe pertencemos.
A sua influência, infelizmente bem restrita, jamais conseguiu fazer-se sentir do lado de cá do Ave que nos banha pelo nascente, o Avicela, o Avesinho.
Aqui mandou primeiro Barcelos e depois Famalicão. A nossa ascendência é bem mais distinta e fidalga. E note o sr. Padre António que os famalicenses  já nesse tempo davam  a esta minha terra o qualificativo de “pérola” do seu concelho. É evidente que à “Fábrica de Fiação e Tecidos do Rio Vizela” alguns favores devemos. Mas ela não foi fundada por S. Tomé de Negrelos. Os capitais de tal empresa eram estranhos a ela. O ser aí fundada foi uma questão de sorte. Nada mais. E ela, para atingir o esplendor e a importância que hoje tem –o que não pouco tem contribuído para o progresso de S. Tomé – teve de procurar as Aves que lhe forneciam mais vantagem na largueza do terreno e na proximidade do caminho de ferro. Se não mudasse de freguesia, não valeria um terço do que hoje vale e S. Tomé pouco mais adiantada estaria que no tempo dos fidalgos de Vilela ou do Paço.
O sr. padre António, do seu solar de Quintão, olhou para o passado das minhas peregrinas Aves sem óculos. E depois a miopia não o deixou ver nada.”

domingo, 27 de maio de 2012

Aves – Negrelos: um despique jornalístico entre amigos, em 1930.(2)


Em  8-9-930, a resposta do Padre Joaquim da Barca ao Padre António de Xisto:


“Estive tentado a não responder à injusta descompostura que sob o título “Negrelos e S. Miguel das Aves” me deu o meu grande amigo o sr. padre António Maria Monteiro Brandão, no número 18 deste semanário.
O comboio na estação de Negrellos - desconhece-se a data da foto;
 pode ter cerca de 100 anos.
Parece-me tão sem razão a tunda e tão clara a influência de algum “espírito santo de orelha” que estive para a deixar passar sem nenhuma referência.
Mas para que ninguém pudesse acoimar o meu silêncio de desconsideração- coisa que aquele  ilustre senhor não merece – resolvi responder-lhe com a máxima serenidade e mansidão.
Incorri  nas censuras de tão respeitável sacerdote por ter chamado estrangeira e feia à palavra “Negrelos”.
Escreveu ele que eu, ao adjectivar “Negrelos “ desta maneira, fui desprimoroso e ingrato, asseverando para fundamentar a sua proposição, que as Aves deviam tudo a Negrelos.
Como, porém, com certeza por um lamentável esquecimento, não provou as suas acusações, eu podia limitar-me a negar que não fui nem uma nem outra coisa e a rejeitar também como uma autêntica falsidade a sua afirmação de que a minha terra deve tudo a Negrelos (…).
Mas irei mais adiante um bocadinho e não terei necessidade de suar o topete para destruir, até à raiz, aquelas afirmações todas. Todas, todas.
(…) Eu não fui desprimoroso chamando estrangeira à palavra Negrelos, O adjectivo estrangeiro, aplicado a quem não é natural de uma terra, não envolve nenhum desprimor ou então os dicionários estão errados… Ora aqui nas minhas Aves aquele termo é não só estrangeiro mas estrangeiríssimo, porque não nasceu nelas nem nelas está registado, nem no religioso nem no civil. É um enxerto de mau gosto que não pode nem deve pegar.
Ao apelidá-lo de feio  confesso que não fui lá muito cortez… Podia ser mais delicado um nadinha, mas mentiroso não fui… porque Negrelos não é bonito nem bem sonante. Fónicamente não presta para nada. A sílaba “gré” fere os tímpanos como a cantilena da cigarra em tardes de estio.
E a sua significação etimológica, segundo o parecer de alguns, também não é das coisas mais belas do mundo. Fazendo-o derivado daspalavras latinas niger e ager significa campo negro, terra negra… E o negro nunca foi coisa bela….
(… ) O sr. padre Brandão sai-se-nos depois com a seguinte tirada, que é de fazer morrer a rir: As Aves devem tudo a Negrelos!... O próprio mafarrico não se lembrava disto…”

sexta-feira, 25 de maio de 2012

Aves – Negrelos: um despique jornalístico entre amigos, em 1930.(1)



Padre Joaquim da Barca e  Padre António de Xisto, era assim que eram conhecidos. 
Um de cá, o outro de lá. Defensores da sua terra, cada um da sua.
Apreciem o que escreveram ambos no Jornal de Santo Tirso…

Aves, 29-7-930
Descabimento da  palavra “Negrelos”

Com o termo “Negrelos”  ou com o patronímico “Negrelense” aplicados às Aves ou a qualquer coisa das Aves de nenhum modo posso concordar.
São enxertos de péssimo gosto que temos de destruir. Não há nada que justifique o uso dessas palavras aqui.
Não posso compreender como se foi buscar fora o nome “Negrelos” para o aplicar à estação do caminho de ferros e à estação telegrafo-postal. É coisa que não tem nenhuma explicação. Eu pelo menos não a encontro.
Para mim há de ser sempre nome estrangeiro e o  seu derivado “negrelense” há de soar sempre ao meu ouvido desarmoniosamente.
Foi uma importação escusada e infeliz.
Foi uma invenção desastrada que pode, se não houver cautela, relegar para lugar secundário o verdadeiro e expressivamente belo nome da nossa terra.
A todos os que se prezam de bairristas impõe-se o dever de evitar por  todos os meios que tal coisa se dê. Todos os que forem amigos das Aves e seus bons filhos não podem dizer que são de “Negrelos” nem a nenhuma coisa nossa podem dar a designação de “negrelense”.
(…) As coisas querem-se no seu lugar. Negrelos tem de ser banida, tem de ser escorraçada, temos obrigação de a fazer repassar o cristalino caudal do Avicela.
Do lado de cá nem ela está bem nem nós. É palavra sem sentido e usurpadora.

Padre Joaquim da Barca

A resposta do Padre António de Xisto:



quinta-feira, 24 de maio de 2012

domingo, 20 de maio de 2012

Um Dia de Festa



FUTEBOL

Quem se lembra desta festa?

E dos seus "heróis"?

Época de 1962/1963

C.D. das Aves sagra-se campeão regional da 2ª Divisão

Com a vitória de ontem, do grupo local de futebol, os desportistas da Vila das Aves viveram momentos do mais intenso entusiasmo, aplaudindo ruidosa e vibrantemente os jogadores que acabaram de conquistar com todo o brilho o título de campeões regionais da IIª Divisão.

Dado que ao grupo da “casa” importaria vencer este último encontro do Campeonato para se sagrar campeão, o campo “Bernardino Gomes” registou a sua maior enchente de sempre. E os adeptos do clube local, acicatados por esse desejo, apoiaram incessantemente a sua equipa.

AVES: Soares dos Reis, Loureiro, Neira e Domingos; Fernando e Dieste; Soeiro, Rapinha, Pereira Lima, Zé Pereira e Miranda.