Tombo que se vai fazendo das coisas e dos factos do presente e do passado de Vila das Aves
quarta-feira, 18 de julho de 2012
sábado, 7 de julho de 2012
Aves – Negrelos: um despique jornalístico entre amigos, em 1930.(10)
Em 23 de Outubro de 1930, a propósito da inauguração do Mercado de S.
Miguel das Aves, na primeira página do Jornal de Santo Tirso, escrevia o Padre Joaquim:
Tal anelo, nesta hora, abrasa a
minha alma inteira. Quem ma dera ter para honrar S. Miguel de Entre Ambas as
Aves e este jornal amicíssimo na consagração que com esta página lhe presta,
num requinte de amabilidade e gentileza.
Eu tenho à minha freguesia um
amor sem limites(…). Nutro por ela uma paixão ardentíssima(…). Vê-la
resplandecer como o astro mais rutilante
seria a minha suprema ventura.(…)
Nem sempre se chamou, como agora S.
Miguel das Aves ou simplesmente Aves. Durante muitos anos, melhor dizendo,
durante muitos séculos, denominou-se S. Miguel de Entre Ambas as Aves ou de
Entre Ambos os Aves, como documentos o atestam e estudiosos o sabem(…)
Em razão de se achar colocado entre as duas ribeiras chamaram-lhe assim para a distinguir de outras freguesias ou paróquias banhadas por uma delas como Riba d’Ave, Santo Tirso de Riba d’Ave e Refojos de Riba d’Ave e Santo Adrião de Vizela, etc (…)
Em razão de se achar colocado entre as duas ribeiras chamaram-lhe assim para a distinguir de outras freguesias ou paróquias banhadas por uma delas como Riba d’Ave, Santo Tirso de Riba d’Ave e Refojos de Riba d’Ave e Santo Adrião de Vizela, etc (…)
S. Miguel das Aves, com o seu
desenvolvimento, absorveu por completo duas freguesias pequenas mas galhardas,
S. Lourenço de Romão e Santo André de Sobrado, de cuja existência nos falam as
pequeninas igrejas em ruínas solitárias e melancólicas. Todas três constituem
actualmente um magnífico bloco homogéneo, que a cordialidade e o perpassar dos
séculos tem de tal sorte caldeado que não será mais possível arrancá-las dos
braços uma das outras.(…)
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quinta-feira, 28 de junho de 2012
Aves – Negrelos: um despique jornalístico entre amigos, em 1930.(9)
(datada de 5/10/930, continuando do número anterior, a correspondência do Padre António)
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| O Telégrafo - Postal de Negrelos ... em S. Miguel das Aves |
Com
esta breve descrição parece-me estar a ver a Bruxa, “que a vivos medo e a
mortos faz espanto”, de espada desembainhada a comandar as Aves de mistura com muita bicharia, e ouvir o
zumbido dos insectos, o piar dos mochos, o grasnar dos corvos, o regougar das
raposas, os uivos dos lobos e o sibilar dos ventos; o latir dos cães, o
chilrear dos pardais, o assobiar dos melros, o tagarelar das pegas e o trinar
dos rouxinóis e canários; o arfar surdo e cadenciado dos perús, o cacarejar das
galinhas, o cantar dos galos e perdizes e finalmente os guinchos estrepitosos e
monótonos dos pavões!
Feita
esta digressão voltemos a focar os rios e
as Aves de S. Miguel. Da confluência
ou junção do rio Ave com o Vizela, em Caniços, é que resultou o Avizela – Ave vizela – e como de Caniços para
baixo segue um só rio formado pelos dois Ave-Vizela, o suposto maiorzinho, Ave, empalmou
o Vizela, e meteu-o na barriga, ficando a chamar-se Ave e só Ave, que todo
lépido e orgulhoso se estende atá Vila do Conde.
Sumiu-se
ou fundiu-se o Vizela com o Ave, em Caniços, e portanto não se formou o santíssima léria do Avezinho, Ave pequenino, mas o
Ave maior. Percebeu?
Isto é de instrução primária
elementar. Com propriedade e verdade devia chamar-se: Ave-Vizela, ou Avizela,
ou Avesão, ou Ave maior, ou simplesmente Ave,
como realmente se ficou a chamar.
(…)
Se for preciso escopeta e chumbo também sei atirar para a cabeça das Aves. É
uma necessidade dizimá-las, pois já não cabem em todas as casas da sua
freguesia. É por isso que querem a Estação de Negrelos, a Telégrafo-Postal de
Negrelos, três quartas partes da Fábrica de Negrelos, a Fábrica ou Empresa
Industrial de Negrelos, a Mercantil de Negrelos, a Loja Operária de Negrelos, a
Fotografia das Aves de Negrelos, bilhetes da rifa para a Igreja das Aves de
Negrelos, metade das pontes de Negrelos, a capela da Senhora da Seca de
Lordelo, a Fabrica Bermoser de Lordelo, e por este andar chegam à própria
Igreja de Lordelo, onde estabelecem a “garage” e nos velhos automóveis que aí há
vão à conquista do mundo inteiro.
(… ) O colega em dois artigos faz-me alusão
pessoal , transcrevendo só palavras isoladas e escarnecendo de mim , à moda das
mulheres de soalheiro.
Se
o colega se limitasse no último e penúltimo números deste jornal a fazer a
descrição chulista da sua e da minha freguesia, que deixou os papalvos de boca aberta, eu ria-me da sua manhosa,
intencional e contraditória palinódia, e deixava passar carros e carretas, almocreves
e ferradores, tocadores de viola, criados de servir, padres e operários,
azêmolas e cachorros, gatos e cães de regaço, formigas, mosquitos,
carregadeiras de pão, moleiros e taberneiros, jornalistas, estudantes, mendigos,
a caliça e aleijões que por aí há e finalmente rapazes e raparigas que nessa
freguesia andam amiúde com os baldes na mão a tirar água dos poços e cisternas
para matar a sede a essa gente, que, em Romão, já tinha morrido toda se não
fosse um benemérito brasileiro; mas
vindo fazer confronto com outras freguesias, inclusive a de Negrelos, quando terminar
o assunto – Estação de Negrelos ou das
Aves – farei um paralelo entre a sua e a minha freguesia e verá qual
é a mais importante.
Far-lhe-ei
ver que se a sua é pérola ou princesa na aparência, a de Negrelos em
tudo e por tudo é rainha.
Tem
essa freguesia a vantagem da bela situação geográfica e o bairrismo desse bom
povo, de que Vª. Revª é o mentor
entusiasta.
(…)
Senão veja o que era a sua freguesia, composta de Romão, Sobrado e Aves, três velhos cacos soldados a resina, para fazer um triângulo maçónico com vértice em Caniços – o inferno!
Senão veja o que era a sua freguesia, composta de Romão, Sobrado e Aves, três velhos cacos soldados a resina, para fazer um triângulo maçónico com vértice em Caniços – o inferno!
(….) chega à conclusão que Negrelos é uma ladeira íngreme,
sobranceira às Aves, onde há muita humidade, conforme o colega confessa no último número. Sendo assim,
Negrelos está vertendo para as Aves todas as suas águas, o que será transformar
a sua freguesia num escoadouro pouco
limpo… A tanto não queria eu chegar.
(…) Por hoje basta, que o relógio dá duas horas da noite.
Au revoir.
Padre António Maria Monteiro Brandão
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segunda-feira, 18 de junho de 2012
Aves – Negrelos: um despique jornalístico entre amigos, em 1930.(8)
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| Caniços, (o inferno?) em 1909 |
( O Padre António, em Setembro de 1930...)
Que era ridículo e irrisório já lhe
fiz ver, que é despropositado e falso, fácil é demonstrá-lo, sem recorrer à
filosofia jocosiana. Para que fosse apropriado era mister que o Rio Ave, de
quem a sua freguesia parece herdar, embora impropriamente o onomástico Aves
passasse mais perto da Estação que Rio Vizela, mas é o contrário.(…) Portanto
devia chamar-se estação do Rio Vizela, a indicar que este rio passava perto, e
não estação do Rio Ave, que está longe e muito menos das Aves, a não ser que
este nome derive de passarada.
Transformar-se de Rio Ave em
fêmeas Aves ou confundir-se, o meu amigo não quer por recomendação expressa de
última vontade , antes de lhe arrefecer o
céu da boca. Além disso
A transformação por metempsicose
do Ave, rio, em aladas
bicharocas Aves, é um disparate, um verdadeiro contra-senso, uma falsidade!
Deveria neste caso chamar-se freguesia e estação do Ave, e não das Aves, como bem fizeram os
habitantes de Riba d’Ave, de Santo
Tirso de Riba d’Ave (…), e os de
sobre o Tâmega, etc. que não usaram o
plural, mas o singular.
É uma falsidade, é um erro, dizer
que um é ao mesmo tempo dois, e portanto, acertadamente andaram
estes povos cultos e civilizados em usar o onomástico Ave e Tâmega e não Aves e
Tâmegas, etc.
Das duas uma, não há que fugir, ou os antepassados da sua freguesia puseram
ou deram o nome de Aves por causa da passarada, ou então temos forçosamente
de concluir que eram estúpidos e bárbaros;
e ainda existem na sua freguesia alguns bárbaros,
e é o colega que o afirma em letra redonda, no último
número deste belo jornal!
De tudo isto se vê claramente que
há corrupção e transformação de palavras e de sexo e, portanto, o nome de Aves
é despropositado, impróprio e falso. Ora isto implica a existência dum nome
próprio e verdadeiro, e este é Negrelos
. Por conseguinte, não deve jamais chamar-se das Aves, mas Estação de Negrelos. Ademais as Aves, como seres viventes, morrem, statutum est semet mori, depois de
mortas corrompem-se, e conseguintemente cheiram mal, jam fetet; ao que mal cheira chama-se porcaria, que nem toda a água
do rio Vizela, com muito sabão de mistura, é capaz de lavar.
O colega varias vezes afirma, e
uma vez tentou infantilmente demonstrar que a sua freguesia tirou o nome dos dois Aves. Qual Aves? Ou qual
carapuça? Nunca se chamaram Aves aos dois
rios até Caniços, nem tão pouco
daqui a Vila do Conde.
(…) O rio Vizela com propriedade
filológica ou científica jamais teve o nome de Avezinho, rio pequenino. Onde
estava o rio grande para termo de
comparação? Avizela, rio pequenino, companheiro e amigo inseparável do Ave, rio
grande! (…)
O meu amigo e colega padre Lemos
a respeito da ciências filológica está muito atrasado, não pesca patavina, e não admira, porque
os seus dicionários estão errados neste ponto ou são a sucata da biblioteca
da Bruxa ou Moura Encantada de Valgas,
com morada antiquíssima nessa freguesia. Decomponha como quiser, e dê-lhe a
etimologia mais arguta que entender que com propriedade científica não consegue
do Vizela fazer Avizela, rio mais pequeno (…)
Na bruma dos séculos, até há cinquenta anos os habitantes de S.
Tomé de Negrelos e de Rebordões, e toda a gente dizia que o lugar de Caniços
era o inferno, e apontando para a
minúscula e antiquíssima freguesia de Romão e para toda a parte sul de S.
Miguel, a que foi anexa, chamavam a África, e bem o parecia.
O colega não o pode negar e sabe
perfeitamente que ainda aí existem exemplares
autênticos de bárbaros e vestígios dos romanos e dos mouros…
Era realmente feio o caco velho de Romão e toda a parte sul das Aves, que desde
Romão abrangia o covil da Bruxa de
Valgas e a aldeola do Tiromiro e seus
vizinhos Salsa e Capela; estendendo-se
pelo lado de baixo da Botica Velha abrangia o moinho do Ruivo e tinha como terminus a casa em que nasceu o antigo Saia, mais tarde benemérito Conde de S.
Bento.
(continua)
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sexta-feira, 15 de junho de 2012
Aves – Negrelos: um despique jornalístico entre amigos, em 1930.(7)
( o Padre Joaquim da Barca:)
… confesso, com sinceridade, que
me tem tristemente impressionado a prosa romarieira do meu grande amigo o sr.
padre António de Xisto, na controvérsia que originou , sem nenhum motivo
ponderoso, com a sua cartinha de 17-8-930, inserta no nº 18 deste amicíssimo
jornalzinho, e que tenho lamentado, muitas vezes, a sós comigo, a pobreza
franciscana da sua argumentação.
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| Casa da Barca, Vila das Aves |
Não
tenho sentido pequeno pesar em ver o seu nome a subscrever artigos em estilo de
esfolhada, capazes de despertar riso em ignorantes, mas absolutamente
impotentes para convencer uma inteligência, mesmo modestamente esclarecida.
Um
assunto sério, meu caro senhor, trata-se em linguagem séria e com argumentos
sérios.
As
facécias, os motejos, as chacotas, as zombarias e os remoques são geralmente,
contraproducentes. (…) Deixe-me falar-lhe, sr. padre Brandão, com o coração nas
mãos: eu esperava mais e melhor da sua pena. Não me tome a mal esta rude
franqueza.
(…)
Se não vier coisa de maior tomo, desde já posso cantar vitória, não lhe valendo
de nada ter chamado à baila o D. Quixote – a imortal criação de Cervantes, infalível recurso de todos os arsenais mal apetrechados para as refertas do espírito, já mais poída
que as botas de um almocreve. Nem originalidade, nem novidade, nem sequer
ajustada aplicação.
E
depois também não foi nenhuma a sua
ventura na escolha do matiz para os seus artiguinhos ou artigões…
Ora
veja lá, sr. padre António Maria Monteiro Brandão, se são digno esmalte da sua
prosa as palavras: taberna, meios litros, ramos de loureiro , paus de ferro,
cacetes, machos – e de penas –fêmeas, galinheiros e galinhas, capoeiras e
galos, bicharocos, bacamartes, saias curtas, cambaleando, turras, manhoso,
gaiolas e outras miudezas.
(…
) E como se há-de classificar a ousadia
de chamar ridículo ao nome Aves, só porque se lembrou de disparatadamente o
comparar a galos e galinhas ou disso o derivar?
(…)
E que se há de dizer da afirmação
piramidal de deixar de ser nossa a estação, pelo facto do terreno em que se
encontra ser comprado pela Companhia?
É
claro que ela é de todo o mundo para uso, mas enquanto à localização é só
nossa, é só das Aves, meu reverendíssimo e diletíssimo confrade, nunca podendo
dizer os de Negrelos, com verdade, que a sua freguesia tem estação dentro dos
limites.
Quem precisa de fazer uma nova estação não é
S. Miguel das Aves, que já tem uma –e ainda há de ter outra, se Deus quiser;
quem carece de edificar uma, ao menos, é
S. Tomé de Negrelos, que não tem nenhuma, nem de cortiça nem de papelão.
(…)
Também há de permitir que eu mais uma
vez lhe diga que do meio das pontes que
nos unem, para a banda de cá, mandamos nós e só nós.
Fique
isto sabido duma vez para sempre. Intrusões, nunca!
(…)
E o sr. padre Brandão, meu amigo íntimo, de muitos anos, querendo, no que me dá
muita satisfação, convidar-me para as afamadas sarrabulhadas do solar rico de
Quintão, escreva para este seu criado, que na Barca, que já se desencalhou do
Vizela e que põe ao seu dispor, para um passeio até ao Fojo, aguarda as suas
estimadas ordens, prometendo jejuar na véspera das jantaradas, para gáudio
da cozinheira e do patrão. Ah, meu boníssimo reverendo, se
tivesse lido com serenidade e sem pruridos de literato filósofo os meus
artiguitos sobre a palavra “Negrelos”, daqui das Aves, não se teria arvorado em
D. Magriço da sua terra, cuja honra ninguém poluiu nem seque tentou poluir.
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sábado, 9 de junho de 2012
Aves – Negrelos: um despique jornalístico entre amigos, em 1930.(6)
Aves, 23/9/1930
O que as Aves são…
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| " o murmurante Ave fez-se seu padrinho..." |
As
minhas dilectíssimas Aves valorizam-se de dia para dia e de dia para dia é mais
intensa e vibrante a sua ânsia de progresso (…). Querem vencer e hão-de vencer.(…)
O seu nome – “Aves” – para quem
lhe sabe a origem e for susceptível de
se impressionar pelo belo, vale um poema e não há chocarrices e graçolas que
consigam diminuir-lha a valia, roubar-lhe os ânimos, ofuscar-lhe a poesia. Ali,
ao norte, temos Riba d’Ave, rica e formosa; mais para o sul, Santo Tirso de
Riba d’Ave, primeiro, a vila donairosa, inconfundível; e, depois, num vale
formosíssimo, onde as vinhas e os laranjais reverdejam pomposamente, aninha-se,
num grande tabuleiro alfombrado de relvas, Refojos de Riba d’Ave.
O
murmurante Ave, ao beijar essas terras na sua passagem para o mar, fez-se seu
padrinho. E que lindas e esbeltas afilhadas escolheu e que magníficos enxovais
lhes ofertou.
Para com S. Miguel levou mais
longe ainda a gentileza: foi dela também padrinho e arranjou-lhe uma madrinha
de peregrina formosura:
O
Avicela, o seu melhor tributário! E a esta afilhadinha, para se não confundir
com nenhuma das outras, resolveram os dois, de comum acordo, dar-lhe um nome
que traduzisse os encantos de ambos e que a todos lembrasse, através dos
tempos, a frescura dos salgueirais que os orlam, o suavíssimo murmúrio das suas
linfas ao deslizar pelas pedras dos açudes e ao amor do primeiro abraço que lhe
deram.
E
escreveram-lhe na fronte nobre e bela. S. Miguel “ De Entre os Aves”.
(…)
E em todo o Portugal só o fará derivar de passarada quem não pescar patavina de
onomatologia.
(…)
Vai na vanguarda. E tem tudo isto sem dever nada às seis paróquias que a cercam,
às quais pode dar, e dá de facto, lições de actividade, abnegação e bairrismo.
As
minhas Aves queridas têm hoje uma aspiração muito legítima. Com tudo o que
acima mencionei, com as águas do Amieiro Galego e com a iluminação eléctrica, querem ascender
à categoria de vila! E porque não? Não
as há por esse Portugal fora muito mais atrasadas e pobrezinhas? Eu creio que
ainda hei de ter o gosto de ver nas geografias, na relação delas, a Vila das Aves, ainda que isso pese a uns
invejozinhos que em seu redor medram e que ainda a hão de saudar com respeito,
venerar com afecto e reconhecer como
terra de brios grandes(…).
Padre Joaquim de Barca
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domingo, 3 de junho de 2012
Aves – Negrelos: um despique jornalístico entre amigos, em 1930.(5)
(a prosa do Padre António, continuação…)
Já que entrei nos domínios da filosofia, apesar de não ter a elegância demosténica, filosoficamente lhe vou demonstrar que se na Estação se inscrevesse a palavra Aves o colega seria o primeiro a arrepender-se e não haveria chefe que fizesse o serviço.
Para isso vou estabelecer as
premissas. A primeira será tirada da filosofia Tomista, e o restante da
filosofia Jocosiana. Jocoso, como sabe, é um filósofo de fama mundial. A sua
monumental filosofia entra em todas as Universidades científicas. Nas Academias,
Liceus, Colégios e Seminários é muito manuseada.(…)
Se na estação se eliminasse a
palavra Negrelos e fosse substituída pelo
irrisório Aves, a rapaziada, lendo
este nome, munia-se de fisgas e logo que visse o Chefe à janela com os vivos
amarelos no barrete, supondo que era um canário ou um papa-figos – zás – uma fisgadela na testa do chefe, e ficava morto. E caso não
morresse e estonteado fugisse , a rapaziada subia à janela para caçar o
passarinho; entrava e era presa pela autoridade, como bando de gatunos e
assassinos.
Em visto do exposto não havia
chefe que quisesse fazer os serviço, a não ser um descrente ou um louco, mas
isso não convinha e, portanto, o colega Padre Lemos dizia: “ mude-se outra vez
o nome, Negrelos é que deve ser e não Aves”.
Tornava a estação a chamar-se de
Negrelos e não das Aves: damos de barato que o amigo Padre Lemos não se dava
por vencido com este argumento autenticamente Jocosiano.
Se esta demonstração o não
convence, como nos há de convencer a sua
reles demonstração de que Negrelos vem de ager
e de niger?
Negrelos decomposto não descende
de tais bicharocos nem de ager e niger. Isso é uma invenção sua ou de
algum nefelibata, muito inferior à minha Jocosiana, que é mais provativa; e não
repugna acontecer o que por sua
argumentação se pretende demonstrar.
Niger e ager são Aves glicónicas
que não arribam a Negrelos, e alimentam-se nos arrozais da sua fértil e mimosíssima
freguesia.
(…) O amigo Padre Lemos ao ver a palavra Negrelos
na estação fica desnorteado, arrepiam-se-lhe os cabelos, crispam-se-lhe as mãos
e com os nervos em contínua vibração,
puxa do florete e investe contra o seu inimigo Negrelos, como o camponês contra
os paus de ferro e o D. Quixote contra o moinho de vento.
O seu amor apaixonado pelas Aves
queridas ofusca-lhe o espírito e faz-lhe ver preto o que é branco e bonito o
que é feio. (….) o amor é um binóculo
prismático que deforma a verdade.
É por isso q eu num artigo o meu
amigo escreve : o Negrelos da minha embirra é o das estações férrea e do
telégrafo postal; noutra parte finge
não saber o que Negrelos é e noutro artigo dá-lhe personalidade jurídica responsável,
porquanto chama-lhe usurpador, e ser
preciso bani-lo e fazê-lo passar o Avizela. Apelida-o de feio e estrangeiro
, e noutro eleva a adjectivação ao superlativo, e denomina-o de estrangeiríssimo. Para fundamentar a sua
proposição argumenta: que não nasceu nas
Aves, nem está registado no civil nem no religioso.
O meu amigo falta à verdae duas
vezes só neste período; porquanto nasceu aí na estação que
Impropriamente pretende
cognominar das Aves e está registado oficialmente
como passo a demonstrar.
O Negrelos a que se refere não é
estrangeiro porque nasceu na estação apenas
ela chegou à idade e hora própria de ser mãe, viveu sempre em sua
companhia, foi baptizada por quem de
direito e, agora que tem maior idade e
fez as bodas de ouro, jamais a largará.
Além disso não é estrangeiro
porque só se chama e é estrangeiro o território, idioma, pessoas ou coisas de
Pátria diversa.
Ora Negrelos é do nosso pátrio
Minho, da nossa linda e poética região(…)
Está registado oficialmente nos
livros do chefe da Estação e em muitos cartões, cartazes e anuários
ferroviários.(…)
Mudar o nome nesta altura seria um disparate incompreensível, um
verdadeiro absurdo e faria um transtorno enorme. Isto é tão intuitivo que
não carece de demonstração.
Se os das Aves querem uma Estação
com o nome da sua freguesia que façam uma nova em terreno que lhe pertença e não no terreno que agora não é seu, porque
o venderam
à Sociedade Soares Veloso em Comandita. A estação que aí está é tanto sua como minha, pertence tanto às Aves como aos de Negrelos, Rebordões, Roriz, Monte Córdova, etc (…)
à Sociedade Soares Veloso em Comandita. A estação que aí está é tanto sua como minha, pertence tanto às Aves como aos de Negrelos, Rebordões, Roriz, Monte Córdova, etc (…)
Os de S. Tomé não reconhecem aos
de S. Miguel o direito de lhe imporem o nome despropositado de Aves e
gloriam-se de ver e ler na estação o histórico e fidalgo – Negrelos.
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quinta-feira, 31 de maio de 2012
Aves – Negrelos: um despique jornalístico entre amigos, em 1930.(4)
( e continua, o padre Joaquim…)
“se as mirasse com as suas boas lentes de aros de ouro,
descobriria, através da bruma dos séculos, que o mimosíssimo triângulo que tem
o vértice nos Caniços e a base em Lordelo e Riba d’Ave, foi sempre mais
florescente e povoado que a sua paróquia, chegando a comportar três freguesias,
todas de antiquíssima formação .(…)
As Aves o que são devem-no à sua excelente situação
geográfica, às maravilhosas condições da sua topografia, ao bairrismo dos seus
moradores e à generosidade de alguns dos seus filhos. Não querem a freguesia de
S. Tomé de Negrelos para mãe, quanto mais para pai!...(…)
E também não estão resolvidas a consentirem que se confunda
o seu belíssimo nome “Aves” com “Negrelos”
que não lhes pertence, nem reconhecem a ninguém o direito de lho querer impor.
As quatro letras da palavra “Aves”, para mim e para todos os meus conterrâneos,
valem mais e dizem muito mais que as oito – e dantes eram nove!- de Negrelos.
Resposta do Padre António…
Negrelos, 14-9-930
Lendo no último número do “Jornal de Santo Thyrso” a
correspondência das Aves, veio-me à lembrança o camponês que embirrava com os paus de ferro e o Dom Quixote, que
supunha ver num moinho de vento um inimigo temível a esgrimir lanças; e notei
que o amigo Padre Lemos foi duma infelicidade pasmosa ao pretender dolosamente dissecar e refutar a minha prosa plumitiva, testa, brava e indignada!... (…)
| Foi preciso esperar mais de 20 anos para ver, ainda que efemeramente, o nome Aves na estação... |
Eu e os meus patrícios não confundiremos o sexo macho com o
sexo fêmea. Ficamos sabendo que as fêmeas Aves , por si protegidas, têm quatro
penas e o macho Negrelos tem oito e que antigamente tinha nove, mas que lhe foi
cortada uma.
Negrelos está aqui de cima com vida e saúde, as Aves
ficam-lhe aos pés. A linha férrea e o rio separam o macho das fêmeas, não se
misturam. Morra descansado e em paz.
V. Reverência tem a estuar-lhe no peito três amores: o amor
da religião, que professa exemplarmente, o amor da família, que idolatra, e o
amor das peregrinas e queridas Aves,
que o entusiasma e apaixona.
É seu sonho dourado engrandecê-las
com bons caminhos e estradas, casas bem construídas e alinhadas e que tenham
inscrita a ouro, como brasão fidalgo, a palavra Aves.
Eu preferia mandar pintar uma Ave em cada casa. Ficava a
matar esse símbolo onomástico. Nomes são nomes, não enchem barriga, ao passo
que as Aves parecem as naturais que, preparadas com
arroz, fazem um pratinho muito apreciado.
É mais estético e afidalgado pintar uma Ave , e é de mau gosto e até ridículo
escrever a palavra Aves na frontaria das casas.
Quem passar de viagem no comboio, vendo escrita na Estação a
palavra Aves, diz logo: “ ali está
uma gaiola”; e como Aves é um termo genérico,
podem fazer ideia que é um galinheiro
que contem galos e galinhas para despachar . Reparando que todas as casas
ostentam o mesmo onomástico Aves
concluem logicamente: aqui é a terra das galinhas e dos galos, porque existem
muitas capoeiras; como corolário flui
naturalmente que não se deve escrever a palavra Aves na estação de Negrelos nem em casa de rico ou de pobre, de
contrário fica a freguesia de S. Miguel das Aves a ser conhecida por freguesia das capoeiras…
Se a lógica não é uma batata, fica provado filosoficamente que se deve conservar o nome de Negrelos
na estação e não o trocar pelo ridículo Aves.
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segunda-feira, 28 de maio de 2012
Aves – Negrelos: um despique jornalístico entre amigos, em 1930.(3)
| " O sr. padre António, do seu solar de Quintão, olhou para o passado das minhas peregrinas Aves sem óculos..." |
(ainda o Padre da Barca, em 8-9-1930)
“… O próprio mafarrico não se
lembrava disto! …. Depois chama-lhe carcaça seca, mirrada, esquelética e sem
vida. Em primores ninguém o vence, meu caro amigo, nem em fantasias!
E mais abaixo dá-lhe uma cabeça
com bico, garras e asas e acaba por lhe chamar Ave medonha! Isto é que é usar
termos polidos, sem falar na sua impropriedade, pois a minha freguesia não tira
o nome que orgulhosamente usa de nenhuma espécie de animais alados, mas dos
dois rios murmurantes que a cingem com a sua linfa e cuja frescura e poesia
admiravelmente traduz!...
(…) Se S. Tomé tem caminhado tão
vagarosamente; se não tem tido energias para se engrandecer a si própria, como
poderia ser capaz de transformar as Aves na princesa do concelho?
(…) Ao antigo “Julgado de
Negrelos”, do qual a sua terra se orgulha de ter sido a sede, com o que nada
temos, nenhum bem nos veio e nunca lhe pertencemos.
A sua influência, infelizmente
bem restrita, jamais conseguiu fazer-se sentir do lado de cá do Ave que nos banha
pelo nascente, o Avicela, o Avesinho.
Aqui mandou primeiro Barcelos e
depois Famalicão. A nossa ascendência é bem mais distinta e fidalga. E note o
sr. Padre António que os famalicenses já
nesse tempo davam a esta minha terra o
qualificativo de “pérola” do seu concelho. É evidente que à “Fábrica de Fiação
e Tecidos do Rio Vizela” alguns favores devemos. Mas ela não foi fundada por S.
Tomé de Negrelos. Os capitais de tal empresa eram estranhos a ela. O ser aí fundada foi uma questão de sorte. Nada mais. E ela, para atingir o esplendor e
a importância que hoje tem –o que não pouco tem contribuído para o progresso de
S. Tomé – teve de procurar as Aves que lhe forneciam mais vantagem na largueza
do terreno e na proximidade do caminho de ferro. Se não mudasse de freguesia,
não valeria um terço do que hoje vale e S. Tomé pouco mais adiantada estaria
que no tempo dos fidalgos de Vilela ou do Paço.
O sr. padre António, do seu solar
de Quintão, olhou para o passado das minhas peregrinas Aves sem óculos. E
depois a miopia não o deixou ver nada.”
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domingo, 27 de maio de 2012
Aves – Negrelos: um despique jornalístico entre amigos, em 1930.(2)
Em 8-9-930, a resposta do Padre Joaquim da Barca ao Padre António de Xisto:
“Estive tentado a não responder à injusta descompostura que
sob o título “Negrelos e S. Miguel das Aves” me deu o meu grande amigo o sr.
padre António Maria Monteiro Brandão, no número 18 deste semanário.
![]() |
| O comboio na estação de Negrellos - desconhece-se a data da foto; pode ter cerca de 100 anos. |
Parece-me tão sem razão a tunda e tão clara a influência de
algum “espírito santo de orelha” que estive para a deixar passar sem nenhuma
referência.
Mas para que ninguém pudesse acoimar o meu silêncio de
desconsideração- coisa que aquele
ilustre senhor não merece – resolvi responder-lhe com a máxima
serenidade e mansidão.
Incorri nas censuras
de tão respeitável sacerdote por ter chamado estrangeira e feia à palavra “Negrelos”.
Escreveu ele que eu, ao adjectivar “Negrelos “ desta
maneira, fui desprimoroso e ingrato, asseverando para fundamentar a sua proposição,
que as Aves deviam tudo a Negrelos.
Como, porém, com certeza por um lamentável esquecimento, não
provou as suas acusações, eu podia limitar-me a negar que não fui nem uma nem
outra coisa e a rejeitar também como uma autêntica falsidade a sua afirmação de
que a minha terra deve tudo a Negrelos (…).
Mas irei mais adiante um bocadinho e não terei necessidade
de suar o topete para destruir, até à raiz, aquelas afirmações todas. Todas,
todas.
(…) Eu não fui desprimoroso chamando estrangeira à palavra
Negrelos, O adjectivo estrangeiro, aplicado a quem não é natural de uma terra,
não envolve nenhum desprimor ou então os dicionários estão errados… Ora aqui
nas minhas Aves aquele termo é não só estrangeiro mas estrangeiríssimo, porque
não nasceu nelas nem nelas está registado, nem no religioso nem no civil. É um
enxerto de mau gosto que não pode nem deve pegar.
Ao apelidá-lo de feio confesso que não fui lá muito cortez… Podia
ser mais delicado um nadinha, mas mentiroso não fui… porque Negrelos não é
bonito nem bem sonante. Fónicamente não presta para nada. A sílaba “gré” fere
os tímpanos como a cantilena da cigarra em tardes de estio.
E a sua significação etimológica, segundo o parecer de
alguns, também não é das coisas mais belas do mundo. Fazendo-o derivado
daspalavras latinas niger e ager significa campo negro, terra negra… E o negro
nunca foi coisa bela….
(… ) O sr. padre Brandão sai-se-nos depois com a seguinte
tirada, que é de fazer morrer a rir: As Aves devem tudo a Negrelos!... O
próprio mafarrico não se lembrava disto…”
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sexta-feira, 25 de maio de 2012
Aves – Negrelos: um despique jornalístico entre amigos, em 1930.(1)
Padre Joaquim da
Barca e Padre António de Xisto, era assim que eram conhecidos.
Um de cá, o
outro de lá. Defensores da sua terra, cada um da sua.
Apreciem o que
escreveram ambos no Jornal de Santo Tirso…
Aves, 29-7-930
Descabimento da palavra “Negrelos”
Com o termo “Negrelos” ou com o patronímico “Negrelense” aplicados
às Aves ou a qualquer coisa das Aves de nenhum modo posso concordar.
São enxertos de
péssimo gosto que temos de destruir. Não há nada que justifique o uso dessas
palavras aqui.
Não posso
compreender como se foi buscar fora o nome “Negrelos” para o aplicar à estação
do caminho de ferros e à estação telegrafo-postal. É coisa que não tem nenhuma
explicação. Eu pelo menos não a encontro.
Para mim há de ser
sempre nome estrangeiro e o seu derivado
“negrelense” há de soar sempre ao meu ouvido desarmoniosamente.
Foi uma importação
escusada e infeliz.
Foi uma invenção
desastrada que pode, se não houver cautela, relegar para lugar secundário o
verdadeiro e expressivamente belo nome da nossa terra.
A todos os que se
prezam de bairristas impõe-se o dever de evitar por todos os meios que tal coisa se dê. Todos os
que forem amigos das Aves e seus bons filhos não podem dizer que são de “Negrelos”
nem a nenhuma coisa nossa podem dar a designação de “negrelense”.
(…) As coisas
querem-se no seu lugar. Negrelos tem de ser banida, tem de ser escorraçada,
temos obrigação de a fazer repassar o cristalino caudal do Avicela.
Do lado de cá nem
ela está bem nem nós. É palavra sem sentido e usurpadora.
Padre Joaquim da
Barca
A resposta do Padre António de Xisto:
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